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domingo, 4 de outubro de 2009

Água e Envelhecimento pelo Dr. Arnaldo Lichtenstein.

Sempre que dou aula de Clínica Médica a estudantes do quarto ano de Medicina, lanço a pergunta:
- "Quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?"

Alguns arriscam:
- "Tumor na cabeça."
Eu digo:
- "Não"
Outros apostam:
- "Mal de Alzheimer".
Respondo, novamente:
- "Não"

A cada negativa a turma se espanta. E fica ainda mais boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns:

- diabetes descontrolado;
- infecção urinária;
- a família passou um dia inteiro no shopping, enquanto os idosos ficaram em casa.

Parece brincadeira, mas não é.

Constantemente vovô e vovó, sem sentir sede, deixam de tomar líquidos.

Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez.

A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo.

Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos ("batedeira"), angina (dor no peito),
coma e até morte.

Insisto: não é brincadeira.

Ao nascermos, 90% do nosso corpo é constituído de água.

Na adolescência, isso cai para 70%.

Na fase adulta, para 60%.

Na terceira idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de 50% de água.

Isso faz parte do processo natural de envelhecimento.
Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica.
Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não sentem vontade
de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno, não funcionam muito bem.

Explico: nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível. Quando ele cai, aciona-se automaticamente um alarme". Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e, de sais minerais,

em nossas artérias e veias. Por isso, o corpo "pede" água. A informação é passada ao cérebro, a gente sente sede e sai em busca de
líquidos..

Nos idosos, porém, esses mecanismos são menos eficientes.

A detecção de falta de água corporal e a percepção da sede ficam prejudicadas. Alguns, ainda, devido a certas doenças, como a dolorosa artrose, evitam movimentar-se até para ir tomar água.

Conclusão: idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu corpo.

Além disso, para a desidratação ser grave, eles não precisam de
grandes perdas, como diarréias, vômitos, ou exposição intensa ao sol.
Basta o dia estar quente ou a umidade do ar baixar muito. Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e pelo suor. Se não
houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja saudável, fica prejudicado o desempenho das reações químicas e funções de todo o seu organismo.

Por isso, aqui vão dois alertas.

O primeiro é para vovós e vovôs:

Tornem voluntário o hábito de beber líquidos. Bebam toda vez que houver uma oportunidade.

Por líquido entenda-se: água, sucos, chás, água-de-coco, leite, sopa, gelatina, e frutas ricas em água, como melão, melancia, abacaxi,
laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

Meu segundo alerta é para os familiares:

Ofereçam constantemente líquidos aos idosos. Lembrem-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção !!!

É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação.
Líquido neles, e rápido para um serviço médico.


Arnaldo Lichtenstein (46), médico, é clínico-geral do Hospital das Clínicas e professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

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